Ac.Viseu: para quando o debate?
A Sé Catedral de Viseu ia caindo quando, em Março, a Direcção do Clube Académico de Futebol, em comunicado, alertou para o estado actual do clube. Indignaram-se, revoltaram-se muitos viseenses ilustres com a possibilidade referida no comunicado da sua possível extinção, caso não houvesse inversão no caminho que o clube segue.
Dois meses se passaram e surge a pergunta: que foi feito para inverter esse caminho?
Nada. Mesmo nada. Esta é a realidade, triste, do Académico de Viseu.
Da Assembleia-geral do Clube, que contou com cerca de 50 sócios, saiu uma Comissão Administrativa que se prontificou, corajosamente, a garantir um final de época desportiva. Foi tudo o que se conseguiu arranjar.
O debate sobre o
Académico de Viseu morreu por aí. Como se tudo tivesse bem e o futuro do clube estivesse garantido. Vem, agora, a CA promover um peditório junto do tecido empresarial e comercial de Viseu. Dá assim um forte sinal de que as coisas continuam mal. Ninguém pede quando tem.
Peditórios são soluções pontuais, não fazem parte de uma gestão contínua e programada.
A época desportiva 2004-2005 corre para o fim e com ela o terminar de um ciclo que pode ser mesmo o cair por terra do clube.
Nestas últimas época, as equipas de formação do Académico de Viseu têm partido em desvantagem relativamente aos adversários, pois não têm recebido os subsídios a que têm direito. Não se pode arrastar esta situação por mais tempo. Está em causa a verdade desportiva.
A Comunicação Social não mais promoveu o debate e o clube sente-se sem meios físicos e humanos para o fazer. Só mesmo nos cafés se vai falando do que está mal e do que o clube já não dá. Do bom e do prestígio já poucos se lembram.
Ouve-se é muita gente falar “no meu tempo” esquecendo-se que foi a desorganização de muitos anos que leva o clube a esta situação. Na maior parte das vezes pensando que estavam a fazer bem, estes dignos dirigentes estavam a criar vícios a adiar soluções. O mal geral do futebol português: um passo sempre maior que as pernas.
Alguns dos profissionais, que “vestiram” a camisola negra do CAF, falam do que deram ao clube, esquecendo-se que foi a Instituição quem lhes deu mais. Entre o deve e o haver o clube fica sempre de prejuízo. Falam como se o Clube fosse seu mas que outros se apoderaram dele. O Clube é de e para todos. Mas ninguém é eterno, todos têm um tempo de estar. Ser-se academista é para sempre.
Quem vai gerir o Académico? De que forma, para onde? Tem sentido fazer formação no Ac. Viseu para alimentar os clubes da região e não o plantel sénior do clube?! Precisam-se de explicações, de se saber qual a orientação.
Chega a altura de debater tudo e todos. De debater o futebol viseense, o papel que o Académico de Viseu tem e pode ter. Que querem as entidades, as pessoas da Região?
A carreira da equipa sénior tem, parece, condicionado todo este debate, com a possibilidade de subida de divisão. Falar agora pode ser sempre factor de destabilização e talvez por isso pouco ou nada se fale. O tempo está a passar muito depressa, são precisas decisões.
Sem protagonismos, sem se ser dono da razão, deve-se debater com bom senso e com o dever de contribuir para o desenvolvimento do futebol em Viseu.
Promova-se o debate, com urgência. Reúnam-se agentes desportivos, convidem-se as Instituições, chame-se quem tanto parece saber, nos cafés, mas reúnam-se rapidamente e encontrem-se soluções ou então é mesmo o fim.
Há muita juventude da Região que está na expectativa. Que gostaria de saber se tem ou não Académico de Viseu para praticar desporto continuamente durante o ano, como deve ser norma de uma formação desportiva de qualidade.
Na última semana num jantar de angariação de fundos, o Académico juntou cerca de três centenas de viseenses! No que mais não foi que um balãozinho de oxigénio. Mas todos quiseram estar na foto. Defendi a iniciativa, mas preferia ver estas centenas de pessoas na última Assembleia do Clube. É que se o tivessem feito, talvez este jantar não tivesse sido necessário.
E a Sé Catedral se não caiu até agora, com o que tem observado, também já não cai.
Vítor Santos in Jornal do Centro (29-04-2005)